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O Evangelho que acaba de ser proclamado é o prefácio de dois grandes cânticos: o cântico de Maria, conhecido como o «Magnificat», e o cântico de Zacarias, o «Benedictus», e apraz-me chamar-lhe «o cântico de Isabel, ou da fecundidade». Milhares de cristãos do mundo inteiro começam o dia cantando: «Bendito seja o Senhor» e acabam a jornada «proclamando a sua grandeza, porque olhou com bondade para a humildade da sua serva». Desta forma, os crentes de diversos povos, no dia a dia, procuram fazer memória; recordar que de geração em geração a misericórdia de Deus se estende sobre todo o povo, como tinha prometido aos nossos pais. É neste contexto de memória grata que brota o cântico de Isabel em forma de pergunta: «Quem sou eu, para que a mãe do meu Senhor venha ter comigo?». Isabel, a mulher marcada pelo sinal da esterilidade, encontramo-la cantando sob o sinal da fecundidade e do deslumbre.

Gostaria de sublinhar estes dois aspetos. Isabel, a mulher sob o sinal da esterilidade e sob o sinal da fecundidade.

Isabel, mulher estéril, com tudo o que isto implicava para a mentalidade religiosa da sua época, que considerava a esterilidade como um castigo divino, fruto do próprio pecado ou do esposo. Um sinal de vergonha levado na própria carne, ou por se considerar culpado de um pecado que não cometeu, ou por se sentir pouco importante, por não estar à altura do que se esperava dela. Imaginemos, por um instante, os olhares dos seus familiares, dos seus vizinhos, de si mesma... esterilidade que entra nas profundezas e acaba por paralisar a vida inteira. Esterilidade que pode ter muitos nomes e formas, cada vez que uma pessoa sente na sua carne a vergonha por se ver estigmatizada ou se sentir insignificante.

Assim podemos ver isto no pequeno índio Juan Diego, quando diz a Maria: «Na verdade, de nada valho, sou mecapal, cacaxtle, cauda, asa, submetido a ombros e à dependência de outrem, este não é o meu paradeiro, e nem sequer vou para onde te dignas enviar-me» (Nican Mopohua, n. 55). Assim também este sentimento pode existir — como justamente nos mostraram os bispos latino-americanos — nas nossas comunidades «indígenas e afro-americanas que, em várias ocasiões, não são tratadas com dignidade e igualdade de condições; numerosas mulheres são excluídas, devido ao seu sexo, raça ou condição socioeconómica; jovens que recebem uma educação de baixa qualidade e não têm oportunidades de progredir em seus estudos nem de entrar no mercado de trabalho para se desenvolver e constituir uma família; muitos pobres, desempregados, migrantes, deslocados, agricultores sem terra, aqueles que procuram sobreviver na economia informal; meninos e meninas submetidos à prostituição infantil ligada muitas vezes ao turismo sexual» (Documento de Aparecida, n. 65).

E juntamente com Isabel, a mulher estéril, contemplamos Isabel, a mulher fecunda-deslumbrada. Ela é a primeira que reconhece e abençoa Maria. Foi ela que, na velhice, experimentou na sua própria vida, na sua carne, o cumprimento da promessa feita por Deus. Ela, que não podia ter filhos, trouxe no seu ventre o precursor da salvação. Nela entendemos que o sonho de Deus não é nem será a esterilidade, nem estigmatizar ou encher os seus filhos de vergonha, mas fazer brotar neles e deles um cântico de bênção. Vemo-lo, de igual modo, em Juan Diego. Foi precisamente ele, e não outro, quem trouxe na sua tilma a imagem da Virgem: a Virgem de pele morena e rosto mestiço, sustentada por um anjo com asas de quetzal, pelicano e arara; a mãe capaz de assumir os traços dos seus filhos para os levar a sentir-se partícipes da sua bênção.

Parece que de vez em quando Deus insista em mostrar-nos que a pedra descartada pelos construtores se torna a pedra angular (cf.Sl 117, 22).

Queridos irmãos, no meio desta dialética de fecundidade-esterilidade olhemos para a riqueza e a diversidade cultural dos nossos povos da América Latina e do Caribe, ela é sinal da grande riqueza que estamos convidados não apenas a cultivar mas, especialmente no nosso tempo, a defender com coragem contra todas as tentativas niveladoras, que acabam por impor — com slogans atraentes — uma única maneira de pensar, de ser, de sentir e de viver, que acabam por tornar inválido ou estéril tudo o que herdamos dos nossos pais; que levam a sentir-se pouco importantes especialmente os nossos jovens por pertencerem a uma determinada cultura. Em definitiva, a nossa fecundidade exige que defendamos os nossos povos de uma colonização ideológica que cancela o que eles possuem de mais precioso, quer sejam indígenas, afro-americanos, mestiços, camponeses ou suburbanos.

A Mãe de Deus é figura da Igreja (cf. Lumen gentium, 63) e dela queremos aprender a ser Igreja com rosto mestiço, com rosto indígena, afro-americano, com rosto camponês, com rosto cola, ala, cacaxtle. Semblante pobre, de desempregado, de menino e menina, idoso e jovem, para que ninguém se sinta estéril nem infecundo, a fim de que ninguém se sinta envergonhado ou de pouca monta. Mas, ao contrário, para que cada um, como Isabel e Juan Diego, possa sentir-se portador de uma promessa, de uma esperança, e dizer do íntimo do seu ser: «Aba, ou seja, Pai!» (Gl 4, 6), a partir do mistério desta filiação que, sem cancelar os traços de cada um, nos universaliza constituindo-nos povo.

Irmãos, neste clima de memória grata por sermos latino-americanos, entoemos no nosso coração o cântico de Isabel, o cântico da fecundidade, e digamos juntos aos nossos povos que não se cansem de o repetir: Bendita sois Vós entre todas as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.